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Mitos do metabolismo – Ácido ursólico e L-leucina na hipertrofia muscular

Veja o que um estudo que saiu essa semana mostrou a respeito da ingestão de ácido ursólico e L-leucina em relação aos ganhos musculares.

Ácido ursólico e L-leucina na hipertrofia muscular

Alguns anos atrás (4 anos eu acho) surgiram os primeiros trabalhos mostrando um novo estimulador da síntese de proteínas, o ácido ursólico. Na época não se sabia muita coisa sobre isso, não que hoje se saiba tudo, mas sabemos um pouco mais. Para entendermos um pouco mais sobre o assunto devemos nos perguntar; o que é o ácido ursólico?

É um composto carbônico encontrado em diversas frutas e ervas – maças – manjericão – mirtilos – framboesas – alecrim – orégano – ameixas. Mas se engana quem acha que ele é novo para ciência, ele é relatado desde 1920 na literatura.

Alguns estudos têm mostrado resultados interessantes do uso de ácido ursólico. O grande problema disso tudo é que os estudos são in vitro (dentro de vidrinhos de laboratório) e não em humanos. Parece que esse composto pode inibir a proliferação de vários tipos de câncer, além de inibir a própria formação de tal célula, induzindo-a para apoptose (morte celular), parece ter efeito leve sobre a aromatase (enzima que transforma testosterona em estrogênio).

Além de tudo isso, parece também aumentar a quantidade de gordura marrom (gordura boa) e reduzir a gordura branca (gordura ruim) quando inserido na dieta de ratos. Outro efeito visto in vitro é a promoção de eliminação de células do sangue defeituosas. Para o pessoal do treinamento o ácido ursólico se mostrou eficiente em ratos, ele foi capaz de reduzir a perda de massa muscular estimulando a hipertrofia e gerando proteção cardiovascular.

O “novo” passa a ser onde e o que ele não promove no organismo de seres humanos.

Recentemente, dia 22 de junho de 2016, foi publicado um estudo muito interessante que deve mudar alguns conceitos sobre hipertrofia, ou pelo menos sobre como ela acontece. Um grupo de pesquisadores do Texas, EUA, desenhou um estudo onde foi realizada a administração de ácido ursólico logo após a pratica de exercícios com pesos (musculação), e foi constatado que isso aumenta a atividade do complexo 1 da mTORc1.
Este estudo examinou a atividade de sinalização de Akt / mTORC1 no músculo esquelético e a concentração de insulin-like growth factor-1 (IGF-1) após a ingestão de ácido ursólico ou L-leucina imediatamente após o exercício com pesos.

Metodologia do estudo

Nove sujeitos que já praticavam exercícios com pesos realizaram exercícios para membros inferiores – legpress e extensão de joelhos – com um programa de 4 séries de 8-10 repetições com intensidade de 75%-80% da 1RM (repetição máxima).

Depois de cada sessão de exercícios os sujeitos consumiam placebo (3g de celulose), L-Leucina (3g Leu) ou ácido ursólico (3gUA). Era coletada as amostras de sangue antes do exercício – 30 minutos depois – 120 (2 horas) minutos depois e 360 (6 horas) minutos depois. Além do sangue, foram realizadas biópsias musculares nos mesmos momentos para analisar fatores hipertróficos locais.

Resultados

O desenho experimental foi capaz de mostrar que tanto leucina quanto ácido ursólico aumentam no plasma quando comparados ao placebo. A leucina se manteve alta por 2 horas e o ácido ursólico ficou até 6 horas no plasma quando comparado ao placebo e Leucina.

Não foram encontradas diferenças significativas nas quantidades de insulina e IGF-1 no plasma ou aumentos significativos nos receptores do músculo esquelético para IGF-1R, AkT , mTOR e p70s6k. Entretanto, os valores de IGF-1 no músculo esquelético se mostrou maior nas 2 e 6 horas após o exercício quando se usou Leucina.

Conclusão

suplementação de 3g de Leucina ou ácido ursólico não mostrou afetar positivamente o complexo Akt/mTORC1 e nem aumentar os valores de insulina e IGF-1 no plasma. Entretanto, a suplementação de Leucina aumentou as concentrações musculares de IGF-1 no músculo esquelético de homens treinados em força.

A ciência sem dúvida alguma é algo fascinante, pelo menos para mim (risos). Uma parcela dos leitores (profissionais) adora afirmar verdades sobre o que funciona ou não funciona na área da nutrição e exercício físico. Quem nunca recebeu “conselhos” sobre: “use isso, eu li que funciona” ou “pode usar tal coisa que é seguro”.

Esse artigo que saiu dia 22 mostra que nem sempre o que “funciona” in vitro ou em animais pode ser diretamente transferido para os seres humanos. Um artigo publicado em 2012 por um brasileiro, Dr. Vandre Figueiredo (@vandrecf) mostrou que o ácido ursólico aumenta a agregação de miotubulos mas não afeta a sua proliferação e que, em doses mais altas, seria possível gerar uma redução das células musculares devido a mio intoxicação (intoxicação muscular).

Temos que ter muito cuidado ao afirmar que A funciona ou B não funciona. Sobre esse assunto vamos ter mais desdobramentos, mais pesquisas com o uso do ácido ursólico devem ser realizadas para que possamos entender seu real papel em seres humanos, e não só na parte da hipertrofia ou emagrecimento.

Até que os estudos não sejam “conclusivos” seguimos consumindo as maças, ameixas e temperos. Podem até não funcionar para hipertrofia por meio do ácido ursólico, mas deixam a alimentação mais saudável e saborosa. Quanto aos mecanismos referentes a hipertrofia muscular não se preocupe, eles vão tomar um outro rumo logo. Os que acreditavam apenas nos processos envolvendo mTOR vão ser surpreendidos com as publicações que estão por vir.

Muita coisa terá que ser vista novamente!

Abraços do Dr. Andre Lopes.

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Referências:
J Am Coll Nutr. 2016 Jun 22:1-12. ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27331824
l-Leucine Increases Skeletal Muscle IGF-1 but Does Not Differentially Increase Akt/mTORC1 Signaling and Serum IGF-1 Compared to Ursolic Acid in Response to Resistance Exercise in Resistance-Trained Men.
Church DD1, Schwarz NA1, Spillane MB1, McKinley-Barnard SK1, Andre TL1, Ramirez AJ2, Willoughby DS1.
Cell Biochemistry and Function – Volume 30, Issue 5, pages 432–437, July 2012

Sobre Dr. Andre Lopes

Dr. Andre Lopes – Professor, palestrante, escritor e cientista. PhD em Ciências do Movimento Humano – UFRGS.

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